30 de jun. de 2018

O medo das coisas



Minha tia teve um namorado na sua vida quase adulta, mais ou menos, na idade que eu estou hoje. Eles ficaram juntos por um tempo, e ele a largou, e logo se casou com uma outra mulher. Anos se passaram, ela nunca o esqueceu, e ele também não. Mantiveram contato por anos, por telefonemas, cartas, e por último, por WhatsApp até que ela faleceu, e ele ficou triste. Hoje me deparei com algumas indiretas no perfil de uma rede social, com músicas de Roberto Carlos onde dizia que perdia um grande amor.

Eu já perdi um grande amor. Ele também faleceu, mas não literalmente, é apenas uma metáfora horrível que uso para poder enterrar meus relacionamentos sem que sofra um luto. Mas continuo acreditando que o amor é teimoso, e ele quer porque quer entrar no meio, e infiltrar em nossas veias. O amor vai onde estamos, e ele dá um jeito de dizer entrelinhas que nos pegou novamente, e assim, chegamos aos setenta anos, colecionando amores e desamores.

Mas da mesma forma que lutei, eu também me corri. Fugi em círculos, mas sei que por mais que tente e me concentre em não pensar, o amor está lá. Querendo renascer de novo, depois de tumulto, solidão, e de ter encontrado bocas erradas. O amor reconhece o cheiro, as carícias, e os silêncios. Mesmo que fique enlouqueça e desapareça, ainda continua lá. Estagnado no peito. É como se a vida implorasse de novo pra ser feliz, mesmo que de novo desse merda.

Eu quero renascer em outro lugar, de novo. Porque vivo mudando e me adaptando, mas continuo acreditando no amor, apesar de toda loucura e sofrimento. Continuo acreditando na sintonia, empatia e todos “ias” que pode acontecer. A gente sofre, sangra, e lamenta, mas de uma forma ou outra, tudo se renova, recomeça e desconecta. Tá tudo bem recomeçar, tá tudo bem enlouquecer, e tá tudo bem sofrer por amor. Mas não tá tudo bem evitá-lo. É preciso sentir para estar viva. E é preciso se perder para continuar. 

Meu amor renasceu depois de tanto tempo adormecido. Espero não levar quarenta anos, espero não estar casada e morando na Rússia para poder ter coragem. Espero não sofrer, mas da mesma forma, espero que a vida não tenha medo de mim, porque eu não tenho mais medo dela. Nem dela, de você, meu amor. 



14 de fev. de 2018

Mariane sem a outra Maria





Para ouvir lendo João e Maria - Chico Buarque 


Pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz, lembra? Cantávamos essa musica como se fosse um mantra sagrado para que eu pudesse ser feliz depois que crescesse, e para que pudesse envelhecer em paz, como tanto desejou.
Era leoa, escorpiana e dizia que meu avô a registrou errado. Contava mil vezes a mesma história até enjoar, me fez ler e aprender a escrever. Se me tornei essa Layla, demos graças. Se me tornei esse ser humano, foi por aprendizado. Se sou mais forte, foi porque te vi chorar inúmeras vezes de saudade, e pela falta da vida que abdicou. 
Ensinou a ler outras pessoas, deu vida para aqueles que foram abandonados e desprezados do mundo. Esse texto não é sobre falar da saudade, mas sim da pessoa que foi, e que se tornou aos poucos dentro de cada um, ou melhor, dentro de mim.
Gostava de dizer que eu escrevia e era minha maior fã. Dizia que eu tinha o dom de ler e entender os outros, de saber escrever e que as minhas falas eram memoráveis. Repetia muitas vezes que eu sabia responder como ninguém, e que minha grosseria era meu maior defeito. 
Não é só minha gratidão por ter nascido e ter sido criada perto, é a gratidão de vários outros. Somos juízes agora, juízes para resolver o que será de nossas vidas sem tuas reclamações e puxões de orelha. É sobre comer direito na hora do almoço, sobre ter contado quando passou um caminhão de água na porta de sua casa, e você, de vestido branco, saiu correndo atrás, e a avó, com seu sangue português e esquentado, te bateu. É sobre cantar músicas dos anos 60. Sobre suas idas na praia, sobre seus amores que não deram certo - puxa tia, que coincidência, os meus também não -
É de sentir saudade, mas de sentir falta também. Porque amor dói, a saudade dói mais ainda, porém o vazio destrói. Me destrói aos poucos e apaga o brilho que a gente construiu. Apaga aos poucos a lembrança de desembaraçar meu cabelo como se eu fosse uma boneca de canela fina. Porque você dizia sempre que eu era de vocês, não apenas de uma, mas de vocês: Nossa Layla, nossa menina, nossa criança.
É sobre sentir saudade, mas é sobre sentir raiva. É sobre descansar e não sentir onde deitar.  Mas não é apenas de sobre sentir, mas é sobre falar porque você me deu a voz. 
E você era a princesa que eu coroei. Se tornou rainha, se tornou idosa, se tornou estrela. Porque ser poema são para os fracos, fortes mesmo se tornam poemas inapagáveis.



Com toda minha saudade, amor (e reclamação de sempre).

8 de jan. de 2018

Poema de um amor informal














Deixe que o tempo te apague lentamente da minha memória Permita que o tempo passe para mim, da forma que passou para você. Permita que eu seja feliz de novo, sem você. Deixe que eu conheça outras pessoas Outros sabores Outras cores Outros amores Outras primaveras E verões Deixe que eu fique quieta Excluindo Desfazendo E refazendo meus passos para longe Deixe que eu finja que nunca te conheci Nunca vi seus passos E nem suas cicatrizes criadas por outras mulheres Moço, me deixe fugir Fugir para onde não posso mais te alcançar Fugir para cidade de pedra Fugir da vida, e de você E fugir de mim Como se fosse a última vez Deixe que eu me desfaça Em pó Em poeira Em areia Em contos Em poemas Em Leminski Deixe com que me encontre e procure no álcool Nos cigarros Nos bares vagabundos Nos copos americanos Nas bocas sem encaixe Nas esquinas da solidão Permita que eu voe para longe Desfazendo em pó e em sonhos Criando destino e pintando ruas com seu sorriso Colorindo vidas com o seu olhar E escrevendo para você

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