14 de fev de 2018

Mariane sem a outra Maria





Para ouvir lendo João e Maria - Chico Buarque 


Pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz, lembra? Cantávamos essa musica como se fosse um mantra sagrado para que eu pudesse ser feliz depois que crescesse, e para que pudesse envelhecer em paz, como tanto desejou.
Era leoa, escorpiana e dizia que meu avô a registrou errado. Contava mil vezes a mesma história até enjoar, me fez ler e aprender a escrever. Se me tornei essa Layla, demos graças. Se me tornei esse ser humano, foi por aprendizado. Se sou mais forte, foi porque te vi chorar inúmeras vezes de saudade, e pela falta da vida que abdicou. 
Ensinou a ler outras pessoas, deu vida para aqueles que foram abandonados e desprezados do mundo. Esse texto não é sobre falar da saudade, mas sim da pessoa que foi, e que se tornou aos poucos dentro de cada um, ou melhor, dentro de mim.
Gostava de dizer que eu escrevia e era minha maior fã. Dizia que eu tinha o dom de ler e entender os outros, de saber escrever e que as minhas falas eram memoráveis. Repetia muitas vezes que eu sabia responder como ninguém, e que minha grosseria era meu maior defeito. 
Não é só minha gratidão por ter nascido e ter sido criada perto, é a gratidão de vários outros. Somos juízes agora, juízes para resolver o que será de nossas vidas sem tuas reclamações e puxões de orelha. É sobre comer direito na hora do almoço, sobre ter contado quando passou um caminhão de água na porta de sua casa, e você, de vestido branco, saiu correndo atrás, e a avó, com seu sangue português e esquentado, te bateu. É sobre cantar músicas dos anos 60. Sobre suas idas na praia, sobre seus amores que não deram certo - puxa tia, que coincidência, os meus também não -
É de sentir saudade, mas de sentir falta também. Porque amor dói, a saudade dói mais ainda, porém o vazio destrói. Me destrói aos poucos e apaga o brilho que a gente construiu. Apaga aos poucos a lembrança de desembaraçar meu cabelo como se eu fosse uma boneca de canela fina. Porque você dizia sempre que eu era de vocês, não apenas de uma, mas de vocês: Nossa Layla, nossa menina, nossa criança.
É sobre sentir saudade, mas é sobre sentir raiva. É sobre descansar e não sentir onde deitar.  Mas não é apenas de sobre sentir, mas é sobre falar porque você me deu a voz. 
E você era a princesa que eu coroei. Se tornou rainha, se tornou idosa, se tornou estrela. Porque ser poema são para os fracos, fortes mesmo se tornam poemas inapagáveis.



Com toda minha saudade, amor (e reclamação de sempre).


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